O Dominicano Branco, um dos grandes romances de Gustav Meyrink (1868-1932), é considerado uma das obras fundamentais do gênero fantástico e também das mais ligadas ao esoterismo e ao ocultismo.
(texto de Bira Câmara)
Este romance é uma das principais obras de Meyrink, que se tornou conhecido mundialmente depois da publicação de O Golem (1915). O Dominicano Branco foi publicado em 1921, quando ele já tinha vivido a maior parte de sua existência agitada e rica em aventuras espirituais. Essa obra constitue um dos pontos essenciais de sua produção literária.
Meyrink mergulhou fundo em áreas desprezadas pelos intelectuais: pesquisou o ocultismo, magia, alquimia, espiritismo, rosacrucianismo, enveredou pelo budismo e taoísmo, cabala, e misticismo oriental.Em 1927, converteu-se formalmente ao Budismo Mahayana. Até sua morte, praticou ioga e outros exercícios ocultos. Tudo isso se reflete na sua obra literária, tornando-o o romancista preferido do público «esotérico» nos anos 60. No entanto, o que o distingue dos autores que se aventuraram nestas áreas, é a profundidade filosófica e a forma como ele usa temas transcedentais em seus romances. Sem dúvida, ele não é um autor fácil, desses que se pode ler apressadamente e descartar.
O dominicano branco, é uma das obras fundamentais do gênero fantástico, na sua vertente oculta e esotérica. O romance descreve a jornada espiritual de um jovem, que, guiado por uma série de personagens, incluindo seu excêntrico pai, o espírito de um ancestral distante, a presença protetora de sua amante morta e a misteriosa figura do Dominicano Branco, foge do materialismo em busca do transcedental e alcança a libertação do mundo para uma transfiguração espiritual, através da qual se junta à ‘cadeia viva de despertos que se estende até o infinito’.
O romance possui um profundo simbolismo esotérico; mas, apesar disso, pode ser lido sem maiores dificuldades. Seu cerne pode ser resumido como uma busca pela transcendência e pela verdadeira individualidade, que nada tem a ver com isolamento ou cultivo de si mesmo, mas com uma abertura ao universo e seus estranhos caprichos.
Nesta estranha obra, Christopher Taubenschlag, personagem principal cuja particularidade é a invisibilidade, vivencia uma série de experiências repletas de mistérios e enigmas, nas fronteiras dos sonhos.
Na infância, Christopher não é um menino como os outros: uma noite, no limite do sonho e do surreal, ele conhece a forma espectral do dominicano branco que o ouve em confissão e o absolve de todos os seus pecados — aqueles que ele já cometeu, mas também todos os que poderá cometer no futuro. Num estilo onde o brilho do lirismo se funde com o claro-escuro do expressionismo, Meyrink conta sua aventura espiritual em busca do amor eterno e da vida.
Christopher — o protagonista invisível — é adotado por um personagem um tanto extravagante, o Barão Von Jöcher, acendedor de lampiões da cidade, cujo ancestral recebeu o título de nobreza por causa de seu ofício. O seu encontro com o barão marcará para ele o início do seu despertar para a vida da consciência; assim como o seu encontro com a bela Ofélia marca para ele o despertar da vida do coração e dos sentidos. A relação com o barão abre para ele um caminho situado nos limites do sonho e da realidade, cheio de enigmas, através do qual ele viaja encontrando desde o espectro de um dominicano branco até a misteriosa figura da cabeça da Medusa.Em O Dominicano Branco cada capítulo sobre filosofia oculta é sempre precedido por um em que a ação ocorre. Meyrink não se preocupa com estilo ou efeitos literários, e como Eduard Frank observou, «os seus livros são sobretudo erupções espirituais de uma existência vivida e empenhada no limiar entre o «aqui» e o «além», entre as dimensões do ser, e isto inclui também a eliminação de fronteiras. Meyrink geralmente gosta de deixar escapar perguntas apenas para negar imediatamente a resposta com uma reviravolta irônica».
Neste romance são evidentes algumas referências autobiográficas: a antipática personagem Aglaja é «na verdade» chamada de Aloísia, o mesmo nome de sua primeira mulher Hedwig Aloísia Certl e assim como Meyrink, o personagem principal Christopher Taubenschlag é filho de um barão e passou a infância num orfanato, ignorante sobre sua origem.
A obra é rica em simbolismo, e não é por acaso que um dos personagens principais são o velho Barão Bartholomáus von Jocher, acendedor de lampiões honorário, e o filho adotivo (posteriormente reconhecido como legítimo), Christopher Taubenschlag. Os nomes são simbólicos: Jöcher, o «elo», que domina a ioga (mesma raiz linguística), e Taubenschlag (pombal), sugerindo uma ideia taoísta de iniciação na qual as pombas desempenham um papel. A profissão de Jöcher também é simbólica: «Caminhar! Acender lampiões até a chegada do sol.» Aqui, o simbolismo é óbvio: espalhar a luz, a missão do verdadeiro iniciado numa época de trevas. Meyrink já havia percebido a decadência e o horror que se avizinhava da civilização. O segredo dos Jöcher é revelado: «Na nossa família, a linhagem dos barões Von Jöcher, herdamos a lenda de que o nosso primeiro antepassado, o acendedor de lampiões Christopher Jöcher, veio do Oriente e de lá trouxe consigo o segredo de conjurar com uma espécie de gesto dos dedos os fantasmas dos mortos e fazê-los obedecer todos os tipos de propósitos.»
Jöcher era membro de uma antiga Ordem chamada Chi-kiai, que significa «a dissolução do cadáver», ou Kieu-kiai, que é «a dissolução da espada». Num antigo manuscrito da família são contadas coisas que podem soar muito estranhas aos nossos ouvidos; com a ajuda da arte de dar vida espiritual às mãos e dedos, alguns membros da Ordem desapareceram de seus túmulos junto com seu cadáver, e outros, em vez disso, foram transformados em espadas enquanto estavam no subsolo. No capítulo «O Livro Cor de Cinábrio», talvez o mais importante de todo o romance, são ensinadas práticas mágicas reveladas pelo primeiro ancestral ao último de sua linhagem. Meyrink tinha um profundo conhecimento dessas coisas, pois estudou a fundo as obras do orientalista austríaco August Pfitzmaier e de Sebottendorf.
Sobre a figura que deu o título do romance, Meyrink é reticente: «Circula pela cidade a lenda de que um monge dominicano, Raimundo de Penyafort, construiu a igreja de Santa Maria com esmolas recebidas de doadores anônimos de todo o mundo. No altar está a inscrição: Flos florum... (...) Uma placa colorida foi pregada no topo, mas cai repetidamente todos os anos na mesma festa da Virgem Maria. Dizem que em certas noites de lua nova, quando está tão escuro que não se vê a mão diante dos olhos, a igreja lança uma sombra branca sobre o quadrado negro da praça, e que é a figura do dominicano branco Penyafort».
Meyrink rejeita duramente o mediunidade e o espiritismo. É seu inimigo declarado: «Está próxima a hora em que a doutrina do mediunismo invadirá a humanidade como um sopro de peste; pressinto-o fortemente.» Atrás dele aparece a temível cabeça da Medusa, ícone de toda a corrupção e depravação moral presente no romance. Talvez ela fosse para ele um símbolo arquetípico cuja aparição em plena luz do dia, vinda do subconsciente coletivo, incutiu medo nele, antecipando uma luta espiritual pela vida e pela morte que se seguiria.
Pela sua profundidade e influência na cultura contemporânea, a obra de Meyrink atraiu a atenção de eruditos, filósofos e psicólogos como Jung e, mais recentemente, do psicanalista espanhol Luis Montiel.
Autor de um abalizado estudo, Montiel demonstra de forma meticulosa e erudita conexões entre a obra de Meyrink e Jung. «As diversas histórias de Meyrink, cheias de magia, alquimia e astrologia; de reencarnações, transfigurações e sonhos; das religiões e tradições místicas orientais e de não poucos mistérios esotéricos da alma humana, acabam por se tornar um tratado único e valioso de psicologia profunda. O ocultismo meyrinkiano certamente escondia algo: um conhecimento sobre o inconsciente que, paralelamente, também se desenvolvia na obra de Jung.»(*) Nesta viagem do ocultismo à psicologia profunda, o trabalho de Meyrink contribuiu de alguma forma para tornar a época mais sensível, mais propensa a aceitar a psicanálise que acabava de nascer.
Para Montiel, «a biografia de Gustav Meyrink mostra com extraordinária clareza o trânsito desde o ocultismo até a introspecção na busca do sentido profundo da existência humana e do anseio de transcendência. Sua obra literária, eco dessa evolução pessoal, ilustra de maneira detalhada essa mudança radical que foi produzida também na cultura contemporânea pela mão da psicanálise. O mais surpreendente da narrativa de Meyrink, geralmente subvalorizada, é que sua descoberta pessoal da vida psíquica inconsciente apresenta uma semelhança extraordinária com a descrição dessa dinâmica que o criador da chamada “psicologia analítica”, Carl Gustav Jung, irá elaborar em seu trabalho, vários anos depois. Embora sem esses nomes, o “processo de individuação” e os arquétipos junguianos são perfeitamente reconhecíveis nos romances de Meyrink que, dado o elevado número de leitores angariados como resultado da sua publicação, provavelmente desempenharam um papel na subsequente aceitação popular das noções da nova psicologia profunda.»(*)Para melhor entender a obra de Meyrink, os estudiosos que se debruçaram sobre ela tiveram que fazer exaustivas correlações entre a sua ficção e os eventos de sua atribulada existência e suas aventuras pelo território árduo do transcedental. Mas pouparemos ao leitor digressões que poderiam mais confundir do que ajudar o entendimento e deixamos que a luz do acendedor de lampiões ilumine sua alma.




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