sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"A Noite de Walpugis", uma noite muito doida

Todos os anos, na noite de 30 de abril, as portas do Inferno se abrem, fantasmas são libertados e os mortos passam a interferir no mundo dos vivos. História, mito e realidade política se fundem neste estranho romance de Gustav Meyrink.  
(texto de Bira Câmara)

Como Italo Calvino, Bioy Casares, Garcia Marques e Jorge Luis Borges, Gustav Meyrink é um dos grandes escritores do gênero fantástico do século XX. Uma de suas crenças, que transparece em várias de suas obras, é que «o reino dos mortos entra no reino dos vivos e que nosso mundo visível é, incessantemente, penetrado pelo outro invisível». Já se conjeturou que Meyrink começou sentindo que o mundo é absurdo e, portanto, irreal. Esses conceitos foram manifestados inicialmente em livros satíricos e, depois, em obras fantásticas e hediondas.

Assim, sua magistral obra A noite de Walpurgis (1917) é inspirada na crença popular segundo a qual anualmente — em 30 de abril — o mundo dos fantasmas é liberado e as portas dos Infernos são abertas, o superior é subvertido pelo inferior e o fundo do abismo passa para o topo. Eventos se desencadeiam sem causa aparente; e de nada vale então as racionalizações «psicológicas». A vida irreal de um mundo desconhecido domina inteiramente os eventos do mundo supostamente real. O ocultismo triunfa e a realidade é finalmente suplantada e destruída.

O local da história é Praga e o pano de fundo o conflito entre autoridades alemãs no antigo castelo de Hradschin e uma revolução tcheca fervilhando na cidade abaixo. História, mito e realidade política se fundem em um clímax apocalíptico, quando os rebeldes, instigados por um tambor coberto de pele humana, invadem o castelo para coroar um pobre violinista «Imperador do Mundo» na Catedral de São Vito. 

É importante notar que este livro foi escrito durante a Primeira Guerra Mundial. A ação do romance, imbuída de uma atmosfera de cataclismo, ecoa metaforicamente a Grande Guerra. Meyrink concebe esse evento como a irrupção de forças das trevas em face das quais o indivíduo não pode fazer nada. Nisso, a fantasia de A Noite de Walpurgis marca uma ruptura com a literatura tradicional de fantasia, que gira em torno do herói. Os eventos escapam à razão, mas não são necessariamente devidos ao acaso; são ditados por uma inevitabilidade que vem da lenda, da superstição ou, ainda, do atavismo do destino. Assim, na ficção de Meyrink, o homem está reduzido ao estado de fantoche nas mãos de forças que o manipulam. Mas não é exatamente isso o que acontece no mundo real?

Recorrendo a lendas, Meyrink encena o inevitável retorno à violência na História e, portanto, o seu romance é marcado com o selo da fatalidade. A lenda de Jan Žižka, senhor da guerra com um olho só, durante as guerras dos hussitas, depois de perder o segundo olho em batalha, ordena que sua pele seja esticada num tambor. Dessa forma continuou a liderar seus homens na batalha além da morte. No romance, este tambor simboliza o desencadeamento da violência sangrenta. Encarnado no sonâmbulo Zrcadlo, gera uma força destrutiva que provoca a revolta popular. Para se conformar à lenda, Zrcadlo é massacrado pela multidão furiosa, e os insurgentes investem contra o palácio de Hradschin com a intenção de o saquear.

Não há mocinho nem bandido na história; de um lado a decadente aristocracia cruel e insensível, do outro a turba enfurecida e sedenta de sangue, incitada por agitadores nihilistas. Meyrink ironiza as inclinações revolucionárias dos conspiradores que buscam apenas o lugar daqueles a quem querem destruir. Uma zombaria que aparece, em pequenos toques discretos e devastadores, em muitas páginas do romance. Aliás, este texto poderia servir de ilustração para a tese de que qualquer escrita ligada ao fantástico deve ser reacionária, pois, ao retratar as ações de personagens que se movem em várias realidades e para quem o mundo cotidiano nada mais é do que o reflexo visível de um invisível infinitamente vasto, contesta fortemente qualquer ilusão de emancipação e progresso.

Desde as primeiras páginas o leitor respira a atmosfera de non sense, do estranho, do sobrenatural, que flue no desenrolar da história com naturalidade, de forma quase prosaica. E o autor não precisa gastar muitos parágrafos para descrever seus personagens, deixando o leitor se surpreender com os eventos que se desencadeiam freneticamente rumo ao final apocalíptico. Mas nesta voragem trágica em que a vontade humana pouco ou nada pode fazer para mudar o rumo das coisas, há uma fresta para a redenção, presente onde menos seria esperada: a redenção pelo amor de uma velha prostituta, que se tornara uma bruxa horrível e repulsiva, mas capaz de sacrificar a própria vida para salvar o homem que amava.

Um ponto importante a ser destacado no texto são as referências ocultistas e místicas, temáticas que o autor se dedicou a estudar paralelamente à sua atividade literária. O leitor mais atento perceberá que há um sentido oculto em muitas passagens, e alguns capítulos são carregados de simbolismo cabalista e esotérico, o que torna a leitura dessa obra uma experiência enriquecedora.

Enfim, Meyrink tem a incrível capacidade de misturar o burlesco e o fantástico, o sonho e o trivial, o sarcasmo e a filosofia.

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Gustav Meyrink nasceu em Viena em 1869, filho natural de um ministro do rei de Württemberg e de uma atriz. Foi para Praga aos 16 anos para frequentar a escola de administração e viveu lá por vários anos. A atmosfera da cidade influenciou-o profundamente e foi lá que iniciou sua carreira como escritor de literatura fantástica. Munique, Praga e Hamburgo compartilham seus anos de juventude. 

Trabalhou como funcionário de um banco e detestava esse emprego. Para escapar ao tédio deste trabalho, mergulhou no estudo confuso das “ciências ocultas” e na composição dos escritos satíricos. Atacou neles o exército, as universidades, os bancos, a arte regional (“Arte”, escreveu ele, “onde o artístico está ausente e onde o regional é forjado”). A partir de 1899, a famosa revista Simplizissimus publicou seus escritos. Nesta época também traduziu algumas obras de Dickens e histórias de Pöe.

Seus primeiros textos foram sátiras grotescas, que mais tarde combinou com ocultismo e misticismo, culminando em seu romance mais famoso, Der Golem (1915). Também escreveu várias fábulas como Der Fluch der Kröte ("A Maldição do Sapo", 1903).

Passou a odiar tanto sua mãe, Marie Meyer, que em 1917 mudou legalmente o sobrenome que ela havia lhe deixado para apagar todo nexo que o ligava a ela. O relacionamento com sua primeira esposa, com quem se casou em 1892, também não foi dos mais felizes. Somente após o divórcio, com sua segunda esposa, Philomene Bernt, conheceu a estabilidade sentimental. Tinha trinta e seis anos de idade e gozava de uma razoável fortuna, mas a perdeu em 1902; foi então que começou a publicar suas primeiras histórias fantásticas. Em 1915, o sucesso alcançado com O Golem novamente deu-lhe algum alívio econômico. A partir de então, não parou de publicar novos trabalhos, dedicando-se ao estudo das ciências ocultas e dos fenômenos parapsicológicos, dividindo seu tempo entre o campo e a vida urbana de Viena, Munique e Praga, a última cidade que mais o fascinou entre todas. Gustav Meyrink morreu em 1932, alguns meses depois do suicídio de seu único filho, Harro, com 24 anos e sofrendo de paralisia após um acidente nas montanhas. Ele se despediu serenamente de sua família na noite de 4 de dezembro deste ano, retirou-se para seu quarto, lutou com ansiedade a noite toda e, uma vez terminado o dia, com os braços cruzados e o peito descoberto, deixou a janela aberta para deixar entrar o frio e a luz.

A Noite de Walpurgis
de Gustav Meyrink

Escrito durante a Primeira Guerra Mundial, o romance ecoa metaforicamente a atmosfera de cataclismo do conflito. Meyrink concebe esse evento como a irrupção de forças das trevas em face das quais o indivíduo não pode fazer nada. Os eventos certamente escapam à razão, mas não são necessariamente devidos ao acaso; são ditados por uma inevitabilidade que vem da lenda, da superstição.

Tradução de Lucas Cartaxo e prefácio de Bira Câmara. Brochura, Ilustrada. 220 págs. 14 X 20 cm. (2020)

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