Histórias Estranhas, coletânea de contos de Ivan Turgueniev reune algumas histórias do gênero fantástico.
Turgueniev é conhecido como um dos líderes da escola realista na Rússia, mas como tantos outros grandes escritores russos do seu tempo — como Pushkin, Gogol, Alexei Tolstoy —, também produziu algumas obras do gênero fantástico.O título original em russo Strannaya istoriya não é acidental. Turgueniev era grande conhecedor da literatura inglesa e prestou uma espécie de homenagem a Bulwer-Lytton, embora o conto-título de sua obra seja muito diferente de A Strange Story.
Turgueniev é conhecido como um dos líderes da escola realista na Rússia, mas como tantos outros grandes escritores russos do seu tempo como Pushkin, Gogol, Alexei Tolstoy, também produziu algumas obras do gênero fantástico. Na verdade, como registrou Prosper Merimée, “seja crítica ou elogio, ele não pertence a nenhuma escola; segue suas próprias inspirações. Como todos os bons romancistas, dedicou-se ao estudo do coração humano, uma mina inesgotável, embora explorada há tanto tempo. Observador atento, exato, às vezes até meticuloso, ele compõe seus personagens como pintor e poeta ao mesmo tempo. (...) Graças à faculdade de condensar, de alguma forma, as suas observações e dar-lhes uma forma precisa, Turgueniev não nos choca mais do que a natureza, quando nos apresenta algum caso extraordinário e anormal. (...) Em suas ficções, ele capta de uma só vez uma série de detalhes unidos por algum vínculo misterioso, que ele pressente, mas que talvez não consiga explicar.”(1)
Nos seus contos fantásticos sempre está presente um toque de lirismo. Seus personagens femininos, sobretudo, se revestem de uma natureza trágica, singular e enigmática que nos faz lembrar a célebre frase de Freud, “mulher, este território obscuro”. Assim, o tema amoroso para ele não pode deixar de ter um tom trágico, como em História Estranha e Toc... Toc... Toc.
Para melhor entender a motivação do autor na elaboração de seus personagens e no elemento sobrenatural em alguns de seus contos fantásticos, não podemos deixar de lembrar que o espiritismo estava na moda em meados do século dezenove. A conexão entre a primeira parte de sua História Estranha e o célebre médium americano de origem escocesa Daniel Dunglas Home (1833-86), é até certo ponto óbvia. Como o personagem Vassily, ele promovia a aparição de espíritos dos mortos, que falavam com as pessoas em suas sessões, e muitos afirmavam que ele conjurava aqueles em quem os presentes apenas pensavam e que ele não poderia conhecer. Fazer perguntas mentalmente a médiuns e “espíritos” era bastante comum nas sessões espíritas.
Em Toc... Toc... Toc, batidas produzidas acidentalmente pelo narrador insone têm um efeito tão surpreendente sobre seu amigo supersticioso Ilya Teglyov que ele decide repeti-las, de propósito. Então Teglyov imagina que ouve uma voz chamando seu nome. Aqui Turgueniev está parodiando, na verdade, as origens do espiritismo moderno com as irmãs Fox em 1848. Na prática mediúnica, uma batida dos “espíritos” significava não, duas talvez e três sim.Na história O Sonho, o estranho bonito e de olhos negros, mas de expressão maligna, que surgiu da parede para sufocar e (presumivelmente) estuprar a mãe do narrador, é uma figura sinistra, quase sobrenatural. As forças misteriosas que impulsionam o jovem em direção a esse pai natural, cada vez mais próximo, repetindo detalhes de seu sonho persistente, levam a história a um desfecho inusitado e ambíguo. O cenário final é onírico: nevoeiros, uma tempestade, um naufrágio, e gaivotas pairando sobre o cadáver de um homem levado pelo mar. Fica o mistério ao final sobre o que realmente aconteceu, e a dificuldade do leitor em conciliar todas as evidências sobre o Barão X.
Fantasmas começa com uma citação aos fenômenos espíritas: “Esta tolice de mesa-girante me deixou perturbado!” Pensei. “São apenas meus nervos.” A primeira aparição da vampira-fantasma é precedida por uma música estranha como D.D. Home fazia soar em suas sessões, e no final o narrador se pergunta: “Mas qual é o significado destes sons claros e penetrantes — estas notas agudas de gaita —, que ouço todas as vezes que alguém fala da morte em minha presença? Elas continuam a soar cada vez mais fortes e estridentes... E por que estremeço de dor ao mero pensamento de aniquilação? Patrick Waddington(2) observou que as duas queixas nesta conclusão apontam para uma dupla interpretação: por um lado, Fantasmas é um exercício de estilo, um estudo do espiritismo do ponto de vista artístico, mas por outro é mortalmente sério. O próprio Turgueniev chamou isso de “uma pequena fantasmagoria” e “uma série de visões espirituais dissolventes”, representando seus próprios estados mentais transicionais e pesados. A história é a primeira tentativa consciente de Turgueniev de escrever fantasia e uma investigação do potencial espiritual das sessões espíritas.
Sobre este conto, Merimée observou que “toda esta brilhante fantasia é apenas uma espécie de enquadramento para uma série de paisagens, todas variadas e maravilhosamente pintadas, que é impossível transmitir em outra língua o encanto destas descrições tão simples e tão pitorescas, porque a concisão e a riqueza da língua russa desafiam os tradutores mais hábeis.”
Nestes contos “estranhos” Turgueniev constrói paralelamente uma interpretação científica e misteriosa do que está acontecendo, bem ao gosto dos ficcionistas da época. Mas, apesar de seu grande bom senso e racionalismo, ele era uma pessoa notoriamente supersticiosa e hipocondríaca. Achava que seus polegares curtos eram um sinal de sua fraqueza de vontade. Chegou a calcular o seu ano climatério — assim como o personagem Teglyov — e acreditava com segurança que morreria em 1º de outubro de 1881. Frequentemente, tinha sonhos peculiares que seriam o deleite de um psicanalista moderno e desde cedo ele afirmou ter tido experiências que só podem ser descritas como sobrenaturais. Nas suas obras, no entanto, Turgueniev abordava fenômenos espirituais de forma mais cômica do que seriamente.
NOTAS:
(2). Two authors of strange stories: Bulwer-Lytton and Turgenev, New Zealand Slavonic Journal, 1992
Influência de Bulwer-Lytton
Quando Turgueniev publicou o conto intitulado Histórias Estranhas (1869-70), o romance de Bulwer-Lytton A Strange Story (1861-62) já era um best-seller consagrado em vários países. Foi traduzido para o russo e publicado em séries simultaneamente com sua publicação na Inglaterra. Uma tradução em volume foi publicada em São Petersburgo em 1865. É possível que a repetição do título Strannaya istoriya por Turgueniev — que era grande conhecedor da literatura inglesa — foi uma espécie de homenagem a Bulwer-Lytton, embora seja muito diferente de A Strange Story. Na Inglaterra vitoriana ele era considerado um dos romancistas mais populares, celebrados e bem-sucedidos de seu país. A sua reputação já estava bem estabelecida na Rússia desde meados da década de 30. Críticos literários russos como Vissarion Belinsky e A.V. Druzhinin exaltaram suas obras. Bulwer-Lytton permaneceu popular entre os leitores russos até depois de sua morte. Muitas traduções foram publicadas em São Petersburgo e Moscou nas décadas de 1860, 70, 80 e 90.
O conhecimento de Turgueniev das obras de Bulwer-Lytton começou desde cedo. Seu irmão mais velho, Nikolay, era anglófilo e acredita-se que o tenha encorajado a aprender a língua inglesa. Ele esteve na Inglaterra, mas não há registro de que tenha feito contato com Bulwer. Ambos partilhavam interesse comum no médium D.D. Home, que visitou Londres pela primeira vez em 1855 e tornou-se o mais célebre dos “médiuns espíritas” da época. Ele era extremamente hábil ao explorar as circunstâncias de uma sessão que tornavam difícil a observação imparcial: luzes fracas, presença de apoiadores leais, emoções do público, falta de atenção, vários fenômenos ocorrendo simultaneamente em diferentes partes da sala.
O primeiro encontro de Turgeniev com Home ocorreu em Paris, na primavera de 1857. Com ele estava Lev Tolstoy, que depois de várias sessões anotou laconicamente em seu diário: “Home fez e não fez.” O relato da sessão espírita é mais completo, mas ainda tentador: “Eu estava em uma casa onde o famoso bruxo Home... fez suas maravilhas, mas não deu em nada; apenas uma vez, a meu pedido, algo deu três pancadas sob a sola do meu pé direito. Não entendo como isso foi feito. Mas Paris não fala de mais nada além dele; ele esteve no palácio das Tulherias três vezes em uma semana e diz-se que lá realizou maravilhas: uma mesa ergueu-se no ar, certas mãos foram vistas, acordeões tocados sozinhos e sinos não caíram, mas flutuaram até o chão... Nós, pecadores, não vimos nada disso.”
Já Bulwer-Lytton não só conheceu pessoalmente o médium, como hospedou-o em sua mansão, onde ele promoveu várias sessões espíritas. Do seu relacionamento com ele, colheu material para o seu trabalho literário e construiu o personagem Margrave, de A Strange Story, em cima da personalidade de Home.
Por tudo isso, alguns críticos literários como M.O. Gershenzon e mais recentemente Patrick Waddington, reconheceram a influência de Bulwer-Lytton na obra de Turgueniev.
Ivan Turgueniev nasceu em 1818, em Oriól (Rússia) e faleceu em 1883. Filho de proprietários de terras, teve o conforto suficiente para se dedicar a sua carreira literária, bem como a oportunidade de visitar vários países europeus. Foi um dos autores russos que mais se aproximou da tradição literária do velho continente e, na França, tornou-se amigo de grandes figuras do mundo literário de seu tempo, como Flaubert, George Sand, Emile Zola, Anatole France e outros. Estreou no romance em 1856 com Rudine e sua principal obra é Pais e filhos, publicado em 1862.
E.-Melchior de Vogué, tradutor francês de Turgueniev, assim o definiu em seu necrológio: “personificou as principais qualidades do verdadeiro povo russo: bondade ingênua, simplicidade, resignação.”
Histórias Estranhas
Ivan Turgueniev
Tradução da edição francesa e prefácio de Bira Câmara.
Brochura, 14X20cm, 198 págs.
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